O Joe Taylor, K1JT, destruiu, o radioamadorismo?

Um artigo longo que vale a pena ler até ao fim!

 

O artigo original foi publicado em Fevereiro de 2018, no The Spectrum Monitor, na coluna Amateur Radio Insights.
Foi traduzido pelo Pedro Carvalho, CT1DBS/CU3HF e publicado com a permissão expressa do autor.

Nota – As Notas de Tradução, para contextualização e compreensão do texto, encontram-se entre parêntesis rectos e em itálico [exemplo]


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O Joe Taylor, K1JT, laureado com o prémio Nobel e apreciado colega radioamador em todo o mundo destruiu, acidentalmente, o radioamadorismo?

 Autor: Kirk Kleinschmidt, NT0Z

Tendo acabado de chegar de uma viagem na minha máquina do tempo, posso dizer, inequivocamente, que a história atribui a morte do radioamadorismo ao Joe Taylor, no ano de 2017. Sim, foi ele. De facto, o ano de 2018 DC marca o início do apocalipse do radioamadorismo ou “hampocalypse” [na língua anglo-saxónica], tendo ficado conhecido como ano 1 DT (primeiro ano “depois de Taylor”).

O distinto cientista teve alguma ajuda, como é óbvio, mas tal como a epidemia de gripe de 2027 (como depois se verá) em que um agente patogénico de baixa agressividade, cuja natureza era apenas experimental, escapou ao controle e espalhou-se pela população, replicando-se sistematicamente, também o modo digital FT8 cresceu exponencialmente, sufocando os outros modos.

Já era tarde na altura em que o FT9 e o FT10 foram lançados (modos que permitem uma pequena interacção em tempo real (antes conhecida como “conversação”). Os radioamadores que restaram recusaram-se a trocar cortesias, focando-se, em vez disso, em reportes enviados pelas máquinas e na troca de locators.

No ano 2 DT (2º ano depois de Taylor) foram proibidos os QSOs que não eram feitos por máquinas e as regras proibindo a operação automática em HF foram suprimidas em todo o mundo.
As faixas de amador foram reduzidas a 5KHz de largura a cada 2 MHz (de corrente contínua até ao comprimento de onda da luz) de maneira a que estações computorizadas pudessem mapear esquemas de spread spectrum [saltos de frequência ou espalhamento pelo espectro] e de ALE em tempo real.
Utilizando apenas máquinas desperdiçavam-se larguras de banda adicionais.
O CQWW (agora designado por Concurso CQJTWW) foi o primeiro a entregar diplomas a operadores que não sabiam sequer que a sua estação automatizada tinha participado no concurso e que tinham uma pontuação notável – o último grito em operação automatizada!

No ano 3DT, as redes neuronais [inteligência artificial] verificaram que os humanos eram absolutamente desnecessários nos concursos e na validação de previsões de propagação. Assim, o Serviço de Amador foi eliminado em todo o mundo.

Houve um rumor que uma rede neuronal [inteligência artificial] de Itália, que estava a operar ilegalmente um processador FT11 beta “de alta potência”, fez o DXCC em 478 milisegundos, sendo este o mais rápido até ao momento.
Também é de notar que o CQJTWW, que chegou a utilizar 48 horas e que agora tem apenas competidores da rede neuronal, foi reduzido para 8,5 segundos, libertando a rede neuronal para mais sondagens ionosféricas para utilização de sub-modos.

Numa tentativa de criar uma espécie de banda livre clandestina, que permitisse a interacção entre humanos, alguns antigos radioamadores começaram a experimentar a modulação por gradiente da gravidade terrestre e transceptores de entrançamento quântico, tecnologias que não requerem ou utilizam os estilos restritivos do FT8, FT9 ou FT10 (talvez o FT10 funcione).

Gostaria de partilhar mais mas o meu tempo no futuro é limitado pela potência da minha máquina do tempo.
Se o leitor tiver acesso a uma máquina do tempo mais potente, agradece-se que informe o que se passou a seguir.

Irreverente, não necessariamente irrelevante

A minha narrativa ficcional é atrevida e irreverente, mas, infelizmente, não será provavelmente irrelevante.
O número de QSOs no modo do Joe, FT8, utilizando apenas máquinas explodiu e os efeitos dessa explosão podem ser claramente visíveis nas bandas.

Embora não saiba exactamente porque tal aconteceu naquela altura, a minha primeira exposição ao efeito do JTxx/FTxx ocorreu durante a último verão, na altura das esporádicas E, nos 6 e nos 2 m (ou a falta delas).

Nos dois anos anteriores foram feitos muitos QSOs em SSB e CW, verificando-se um agradável incremento no número de QSOs “não concurso”. Eu estive a trabalhar no meu VUCC [VHF/UHF Century Club] e as coisas pareciam promissoras.

Contudo, em 2017 a tradicional actividade parou. Parecia que ninguém estava em casa. Naquela altura eu não sabia, mas toda a gente estava a utilizar JT e FT enquanto eu procurava outras paragens. A ausência de sinais de SSB e CW não era apenas verificável, era incrível.

Uma semana depois procurei por sinais de PSK31, dado que tinha estado ausente deste modo durante algum tempo. Também não havia ninguém. Ahhh!

Há alguns meses, colunistas na CQ e QST começaram a escrever acerca da mudança de paradigma. A início ainda fiquei céptico mas agora já não estou.

Que raio fez o Joe ?

Numa recente carta da ARRL [associação nacional de radioamadores americanos], observadores atentos fizeram notar o crescimento explosivo de QSOs em FT8 e o imenso declínio de todos os outros modos.
Até o Joe K1JT expressou publicamente a sua surpresa acerca da forma como os seus novos modos digitais tomaram de assalto o mundo radioamadorístico. Mas, talvez como Robert Oppenheimer [responsável pelo projecto Manhattan, construção da primeira bomba atómica], que se sentiu desapontado com a criação da bomba atómica após a devastação do Japão, interrogo-me como o K1JT se sentirá após as suas criações se tornarem “apocalípticas”?

A cobertura relativa às criações de software e contributos do K1JT para as questões técnicas do radioamadorismo concentrou-se apenas nos méritos técnicos destas – o que é óbvio. O software WSJT-X do Joe é uma autêntica obra-prima técnica.

Mas eu gostaria de fazer uma breve intrusão nas grandes implicações que podem ocorrer ao radioamadorismo, no seu todo, no inicio de eventos globais tão disruptivos como o FT8.
Peço desculpa ao Sr. Taylor, mas acho que iguais doses de insolência, exagero e irreverência são boas ferramentas para enfatizar assuntos latentes e lançar o debate!

Eu não penso que o FT8 suplantará outros aspectos do radioamadorismo, mas a parte negativa das tecnologias que permitem QSOs entre máquinas, tais como o JTxx e FTxx, poderão intersectar-se, dramaticamente, com outros assuntos que o radioamadorismo enfrenta como um todo.

Então, vamos esgravatar na crosta da coisa (sem uma ordem particular).

De qualquer maneira, os radioamadores não estão a falar

A nossa experiência individual de radioamador – como tudo o resto – é construído por acumulação de experiências, que frequentemente parecem já “não ter evolução” ou serem “sempre iguais”. Mas, na realidade, nada fica parado e tudo está em constante evolução.

O delta de mudança – a velocidade aparente de mudança – fica maior quando experimentamos alguma dissonância ou mudança disruptiva, tal como aconteceu em 2017 com a “explosão do JT”.

Beneficiando da rectroespetiva, posso perceber que tenho sido parte do problema. Enquanto adolescente, nos anos 70, não tinha callbook [livro de indicativos com moradas] ou mesmo um filtro de CW (para não falar da internet ou do packet cluster), e enviava alegremente  o meu nome completo e endereço, em CW lento, para o correspondente durante os QSOs. Todos fazíamos isto porque, se não fizéssemos, não recebíamos as QSLs que nos eram necessárias para as diferentes conquistas [diplomas e prémios] enquanto radioamador e para as quais tanto e tão diligentemente nos esforçávamos! Sem eQSL. Sem LoTW. Só mesmo QSL via CTT!

Agora, a conversação de radioamador ainda é conversação de radioamador se se conseguir encontrar, coisa que, naqueles dias, mesmo nos QSO rápidos, mesmo com correspondentes de DX, sempre havia alguma cortesia, comentários amigáveis, utilizando ou não código Q e abreviaturas de morse.
Os QSOs em SSB eram ainda mais “apalavrados” com cortesias e cumprimentos.
Fora dos concursos não utilizávamos a matriz de QSOs tipo concurso, havendo sempre 73, 88, HPE CU AGN, TNX QSO, GUD DX, FB SIGS, TU, GL GD DX, etc,

Mas ainda o fazemos hoje e isso é uma bênção e uma maldição. Mais contactos podem ser feitos (talvez uma necessidade face aos QSOs tipo feitos por máquinas, rapidíssimos e suportados por redes de spotting e por eventos ao longo de todo o ano, tal como aquela coisa da ARRL de grid chasing e a maratona DX patrocinada pela CQ) mas perdemos, em larga medida, a camaradagem e o contacto humano.

Ao contrário dos meus primeiros anos, e até recentemente, eu não fiz muitos QSOs em fonia porque estive a viver num apartamento (13 anos) e operava apenas com antenas discretas e em QRP.
Não queria que a minha voz fosse ouvida nalgum rádio despertador, mas sentia-me confortável com os dits do Morse e com os trinados do PSK31, dado que estes dificilmente seriam decifrados pelo comum dos mortais.

É difícil ter conversações em SSB utilizando baixa potência e antenas de compromisso e descobri, enquanto adulto jovem, que não tinha tido o prazer de conversar em CW. Apenas tinha feito QSOs tipo concurso e não conversas longas.

Não utilizo repetidores e se preciso de conversar com um colega telefono-lhe ou aproveito os “pequenos-almoços do radioamador” [encontros de radioamadores para conversar e petiscar] ao Sábado. No passado ainda cheguei a conversar usando PSK31 mas, mesmo nessa altura, utilizando uma série de ficheiros pré concebidos e que permitem pouca conversação! Mesmo que a informação contida no ficheiro possa ser interessante, continua a ser, essencialmente, comunicação automatizada dado que ninguém está a conversar.
Mas o PSK31 é agora escasso, uma memória florida…

Agora que não tenho restrições para as antenas e posso utilizar potência até ao limite legal, procurarei conversações em SSB – assim que encontrar o meu equipamento de 100 W, de que gosto tanto quanto o meu Elecraft KX-3 ou construir um amplificador.
Mesmo quando não tenho de o fazer, estou em QRP. Em quantas desculpas consigo pensar ? Estamos a escorregar para um futuro radioamadorismo não conversacional e parece que eu sou parte do problema!

Os jovens querem apenas WSPR ?

Nestes tempos, quase tudo é acerca “dos jovens”. Pensemos nos jovens que são levados para escolas dos subúrbios em SUV blindados, que não têm oportunidade de brincar ao longo do caminho ou bater os pés numa poça de água de um qualquer buraco da estrada! As pobres almas têm de lidar com a “síndrome do dedo da Nintendo” e, por causa disso, muitos não serão capazes de segurar um bocado de pau nas suas mãos arrepanhadas!

Vou sair desta caixa de comentários antes de me deixar levar na onda (na realidade e literalmente), mas alguém está a pensar muito nos nossos jovens e esse alguém é a ARRL. A ARRL desenvolveu uma grande iniciativa para “pensar acerca dos jovens” e essa é, ostensivamente, acerca de tornar o radioamadorismo mais acessível à geração dos smartphones.

Não poderemos abordar o assunto aqui, por um conjunto de razões, mas parece interessante a forma como o “estilo de operação FT8” serve nas gerações – novas e velhas – de radioamadores introvertidos que entraram ostensivamente num hobby de comunicações, mas que não querem realmente comunicar!

Deixem-me explicar. Os modernos modos digitais, como o JTxx e o FTxx usam codificação da era espacial, modulação e técnicas de descodificação e DSPs que permitem fantásticos desenvolvimentos na relação sinal-ruído, que permitem comunicações rádio em ligações onde a propagação não suporta contactos em SSB ou CW. Essa é a parte boa!

A parte menos boa é que tirar vantagem dessas técnicas requer longos tempos de integração que impactam negativamente as comunicações em tempo real.
A maioria dos QSOs em JTxx ou FTxx requerem tempos muito precisos e a sincronia exige transmissões em ambos os sentidos que vão dos 15 segundos a vários minutos.
É possível transmitir informação de forma limitada em ambos os sentidos, mas não é possível conversar.
Isto é perfeito para receber informação do espaço profundo, situação que levou à criação destas técnicas, mas não é bom para comunicações em tempo real.

A única coisa que impede o processo de ser completamente automatizado é a regra da FFC [equivalente à ANACOM nos EUA], muitas vezes ignorada, que limita a operação automática na maioria das bandas de HF e o facto de o software ter um botão para envio (“send”) que tem de ser realmente clicado de vez em quando pelo radioamador (se essa opção tiver sido selecionada no menu de configuração).

O software WSPR [weak signal propagation repórter] do K1JT é similar. Muitos operadores deixam as suas estações a funcionar [transmitir] 24h/7d de forma automática, seja isso legal ou não.
Os efeitos são minimizados, devido a muitas estações WSPR emitirem na ordem dos miliwatts em vez de kilowatts, mas regras são regras, certo ?
Também prefiro ser atingido por uma arma de paintball do que por uma .44 – Mas prefiro mesmo não ser atingido, de qualquer forma.

O WSPR, quando correctamente utilizado, é uma ótima ferramenta que já melhorou o nosso conhecimento sobre propagação.
É aproximadamente uma rede pública de sondadores ionosféricos que mapeia os modos de propagação em tempo real, providenciando detalhes que nós nem imaginávamos.
Mas o WSPR não é um modo para QSOs porque os períodos de integração são ainda mais longos que os do JTxx e do FTxx que permitem a troca de informação de forma limitada.
De qualquer forma, para os radioamadores que não querem mesmo conversar com outros radioamadores estes novos modos podem ser exactamente a receita certa!

Posso imaginar um jovem a pedir a um dos pais para aderir ao “clube de radioamadorismo WSPR” que funciona como actividade extracurricular.

“Mãe, mãe!” chama o excitado jovem, “lembras-te quando falamos acerca do radioamadorismo e de como estavas preocupada com o facto de ter de falar com estranhos? Bem, acabei de saber que se aderir ao “clube de radioamadorismo WSPR” e se for para o ar, tal como falámos acerca do assunto, não tenho de falar com ninguém, nunca!”

“Bem”, diz a mãe, como uma cara de preocupada, “então e as interferências na vizinhança, a atrapalhação nos trabalhos da escola e aquelas antenas enorme e feias que vimos ?

“Mãe, essa é a melhor parte,” diz o excitado jovem, “WSPR usa potência muito baixa, logo não afectará ninguém. E porque usa uma tecnologia super nova, não será preciso sequer uma antena! Os trabalhos da escola continuarão a ser o meu foco principal – depois dos jogos online – porque o WSPR fala com o meu sistema de jogo e dirá onde foram escutados os meus sinais e coloca esta informação na internet!”

A mãe, que começou a sorrir, diz “Eh pá, fizeste realmente o trabalho de casa, não fizeste? Mas e a licença de radioamador? Não vai ser difícil de obter?”

“Nem pensar, mãe!” diz o jovem, “O meu professor disse que graças a um novo programa de uma organização chamada ARRL posso obter a licença de WSPR simplesmente por ir, em três tardes, a umas sessões. E até nem há teste nem nada. Bem porreiro!”

Improvável? Não penso que seja. Se analisarmos as tendências esta situação parece inevitável. A ARRL, que parece estar a mudar para um paradigma de “jovens primeiro”, utilizando como abordagem o mínimo denominador comum em tudo o que faz, está pressionar fortemente para aumentar os direitos dos radioamadores da classe  Technician para que eles possam usar, por exemplo, os modos digitais e, esperançosamente, queiram progredir no hobby, subindo de classe.

Colocando o meu sarcasmo de lado

Colocando o sarcasmo de parte, uma licença WSPR sem exame pode fazer algum sentido (especialmente nas disciplinas de ciências das escolas básicas), desde que a operação seja restrita (também em potência) a pequeníssimas partes de algumas bandas pouco utilizadas (e temos bastantes destas).

A expectativa de “salvar” o radioamadorismo, a qualquer custo, vale a pena ?
Deverá ser tudo apresentado e embalado de forma a ser acessível a qualquer jovem, em qualquer parte ?

Nos meus standards, os exames para obtenção da licença são já tão fáceis que não colocam qualquer barreira para obtenção da licença. Recentemente, fiz a preparação de um amigo, durante um almoço que durou duas horas, após o que ele obteve a Licença Geral [equivalente à classe B/2 em Portugal] sem estudo adicional. Tudo isto sem nunca ter possuído ou usado um rádio ou mesmo ter patilhado um microfone.

Leva isto à conclusão lógica que em pouco tempo pode haver apenas uma classe de licença – mesmo antes de existir incentivo ao licenciamento!
Levei anos para perceber que, para a maioria das coisas, só apreciamos verdadeiramente as coisas que exigem esforço, tempo ou dinheiro – ou todas as opções em conjunto.

Os jovens de hoje continuam a investir tempo, esforço e dinheiro nas coisas que lhes interessam. Jogos de vídeo. Programação. Desenvolvimento de software. Hardware para hacking. Namoro. Rapazes. Raparigas. Motas. Carros. Radioamadorismo.
Que pensam vocês?

A antena aqui é um dipolo encurtado de 1,8 m

Por causa de restrições nos prédios, etc, gerações inteiras de radioamadores cresceram sem saber o que é operar com antenas “reais”.
Já não conto as vezes em que novos radioamadores me perguntaram se antenas pequenas, caras e feitas para ser utilizadas para serem transportadas às costas para cumes montanhosos, são boas para utilizar em casa. C’um diabo, não são nada boas. São péssimas!

Como enfatizado mais tarde neste artigo, as nossas antenas definem a nossa experiência de radioamadores. Antenas da treta equivalem a experiências más.
Enquanto os radioamadores da minha geração sonhavam com torres muito altas, encimadas com yagis enfasadas (ainda tenho dipolos reais no exterior e loops), muitos radioamadores novos sonham com dipolos a baixa altura, escondidos nas árvores dos seus pequenos jardins ou antenas exteriores de qualquer tipo.

Enquanto sonham estão a vasculhar no que são, essencialmente, não-antenas [uma carga fictícia tem uma SWR de 1:1…], muito caras, e adivinhando porque é que o radioamadorismo não é assim tão catita.

Esses novos radioamadores ficam, muitas vezes, surpreendidos quando lhes digo que se pudesse ter um conjunto antenas em stack, no topo de uma torre realmente alta, trocava alegremente o meu novo equipamento – qualquer novo equipamento – pelos Kenwoods, Heathkits ou Yaesus dos anos 70, que eles vêm como anacrónicos e sem utilidade. Sem mais delongas.
Pode-se utilizar um rádio de compromisso mas não se pode ter antenas de compromisso. Ou pode ?

Atualmente, ao podermos fazer comunicações digitais com correção de erro podemos também mitigar o cenário de antenas deficientes através destas novas tecnologias. Tecnologias como o JTxx e FTxx permitem ganhos de 20 a 30 dB sobre o SSB ou o CW – E isso é imenso!
Mesmo nas comunicações digitais teclado a teclado, tais como o PSKxx e o MSKxx, que permitem conversar com ganhos de 10 a 20 dB sobre SSB e CW, ainda se está no domínio do clube WSPR.

Apenas necessitamos de pequenas bandas

A ARRL e outros grupos estão sempre a dar o coiro e o cabelo para a preservação do espectro atribuído, mas se tudo migrar para a operação do género JTxx e FTxx, as faixas de frequência do serviço de amador poderão vir a ser pequenas amostras do que são agora.

Um grande número de QSOs digitais cabem na largura de banda de um único QSO em SSB, regularmente não é possível escutar auditivamente os sinais, pelo que terá de se procurar os sinais à volta da frequência de chamada e, então, para que servem todas aquelas frequências vazias?

Não há necessidade de chamar CQ nas grandes faixas de frequência

Mesmo que as faixas de frequência do serviço de amador se mantenham “grandes”, não precisaremos de andar à volta das frequências de chamada se os nossos PCs coordenarem entre si os nossos QSOs, na internet, imediatamente antes de colocarem os rádios na frequência combinada, de maneira a que os PCs possam trabalhar-se entre si e registar o contacto de forma a sabermos o que foi feito.

Procedendo desta maneira poderemos facilmente limitar os nossos QSOs de entre uma lista de amigos, membro de um certo clube ou associação de radioamadores (clube de tiro/armas, desporto preferido ou preferência política) ou a amigos que nos enviaram “massa” (Bitcoins?) para obter os nossos raros e virtuais “QSL cards”.
Desta maneira, as expedições DX podem tornar-se lucrativas e enquanto os nossos rádios-robot estão a faturar QSOs, poderemos estar a pescar, a nadar ou a fazer surf!

De entre as redes globais de spotting, entre as quais se contam o reverse beacon network, o WSPR net, o IFTTT, o PSK reporter, etc, podemos fazer a maior parte das coisas já mencionadas com a tecnologia já existente o que, apesar de estar a ser um pouco especulativo (e um pouco mais do que apenas sarcástico), faz com que trazer o radioamadorismo para a “era digital” não seja tão fácil como parecia em tempos passados.

Em direcção a um futuro incerto

O futuro – para onde o radioamadorismo vai e o que será – é resultado do que existe agora e do que aconteceu antes.

Os radioamadores de hoje existem na esteira contínua do que começou (muito lentamente) há algumas centenas de anos com experiências básicas de electricidade e magnetismo, mas está a acelerar a um ritmo exponencial.

A rápida evolução da tecnologia não é, obviamente, um exclusivo da rádio, mas continua a ser admirável olhar para trás e ver a evolução. É fácil “perder a mágica” porque estamos rodeados por ela em cada minuto de cada dia.
Mesmo que não demos conta disso, o comboio da tecnologia desliza pelos carris a uma velocidade cada vez maior.
O radioamadorismo está, também, a mover-se em frente e, nalguns casos, está a aproximar-se do ponto de não retorno – Um horizonte onde não há volta a dar.

Não sendo como a arte equestre, por exemplo, em que cavalgar um cavalo numa sela inglesa é substancialmente a mesma coisa hoje ou há 100 ou 500 anos, o radioamadorismo mudou.
Os transmissores de faísca foram devidamente banidos por lei, são realmente conhecidos apenas por um restrito número de aficionados e o AM por modulação de placa também não é escutado frequentemente.
Nestes dias os receptores regenerativos são de construção caseira, magnificamente construídos por uns quantos entusiastas que continuam a guardar este legado. A elegante mecânica que tornou os antigos rádios tão especiais – e frustrantes – com condensadores de ar, com engrenagens e alavancas sincronizadas e dials robustos foram substituídos por software e matrizes programáveis.

Para o melhor e para o pior, o radioamadorismo está firmemente embebido no domínio do digital e se pensa que os sistemas emergentes não suplantarão o que nós sentimos agora como radioamadorismo, a evolução certamente provará que você estava errado!

Os primeiros cem anos de radioamadorismo testemunharam uma mudança drástica, e daqui a cem anos não seríamos capazes de reconhecer no que o radioamadorismo se tornou – se este ainda existir.
Em termos de “idade geológica” o radioamadorismo parece ter vindo e ido de forma finita, dentro de uma pequena janela temporal da evolução.

Com o que sabemos da progressão de outras tecnologias, espécies, etc, e de toda as provas recolhidas até à data, existe uma boa probabilidade de que o fenómeno a que chamamos radioamadorismo tenha nascido, amadurecido, evoluído e “falecido” num espaço de 150-250 anos. Ponto final parágrafo!

E se isto não for suficientemente inquietante, não nos esqueçamos dos caprichos do sol e da física dos planetas que permite a existência de rádio no seu mais elementar nível. Electricidade e magnetismo – ainda bastante obscuras embora os tomemos como certo do ponto de vista prático – permite a rádio a nível local mas a “rádio global” necessita da ionosfera, que é dependente do sol, e cujos os outputs variam em ciclos mais ou menos misteriosos, etc. E a lista de dependências e “coincidências” ainda está a começar! E se tirarmos apenas uma parte do conjunto interdependente – puf! – não há mais rádio.

Assim, se gosta do radioamadorismo como ele é praticado hoje, é melhor ficar bastante ocupado praticando-o gostosamente – hoje! – porque o nosso inteiro hobby existe numa preciosa e precária bolha de evolução que provavelmente nunca mais será experienciada novamente.

Seja um ponto de inflexão ou de não retorno, quando acordou hoje (ou qualquer dia nos últimos anos), o radioamadorismo estava diferente. Não há que adivinhar se um dia será diferente – O dia é hoje e o radioamadorismo está diferente. O Joe Taylor “causou” no presente, uma perturbação local, mas se ele não o fizesse, outro alguém o faria.

Contudo, no momento presente, mesmo se cruzámos o antes mencionado horizonte, o radioamadorismo está ainda vivo e de boa saúde, e o nosso desvanecimento no futuro –  embora mais perto do que nunca, como evidenciado pela tecnologia digital JTxx e FTxx – ainda está para ser determinado.

A amplitude da ciência radioeléctrica no passado e no presente ainda está disponível para ser explorada (excetuando emissores de faísca!). Podemos construir um receptor regenerativo clássico ou comprar um rádio sintetizado de última geração. Podemos usar o código Morse ou a modulação digital mais avançada. Ou podemos usar uma regeneração primitiva para copiar os sinais digitais mais avançados (talvez estabilizando o oscilador detector com um GPS?).

Mas isto não vai ficar assim – Isso é garantido!

O Joe Taylor, K1JT, destruiu, o radioamadorismo?

Um artigo longo que vale a pena ler até ao fim!

O artigo original foi publicado em Fevereiro de 2018, no The Spectrum Monitor, na coluna Amateur Radio Insights.
Foi traduzido pelo Pedro Carvalho, CT1DBS/CU3HF e publicado com a permissão expressa do autor.

Nota – As Notas de Tradução, para contextualização e compreensão do texto, encontram-se entre parêntesis rectos e em itálico [exemplo]


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O Joe Taylor, K1JT, laureado com o prémio Nobel e apreciado colega radioamador em todo o mundo destruiu, acidentalmente, o radioamadorismo?

 Autor: Kirk Kleinschmidt, NT0Z

Tendo acabado de chegar de uma viagem na minha máquina do tempo, posso dizer, inequivocamente, que a história atribui a morte do radioamadorismo ao Joe Taylor, no ano de 2017. Sim, foi ele. De facto, o ano de 2018 DC marca o início do apocalipse do radioamadorismo ou “hampocalypse” [na língua anglo-saxónica], tendo ficado conhecido como ano 1 DT (primeiro ano “depois de Taylor”).

O distinto cientista teve alguma ajuda, como é óbvio, mas tal como a epidemia de gripe de 2027 (como depois se verá) em que um agente patogénico de baixa agressividade, cuja natureza era apenas experimental, escapou ao controle e espalhou-se pela população, replicando-se sistematicamente, também o modo digital FT8 cresceu exponencialmente, sufocando os outros modos.

Já era tarde na altura em que o FT9 e o FT10 foram lançados (modos que permitem uma pequena interacção em tempo real (antes conhecida como “conversação”). Os radioamadores que restaram recusaram-se a trocar cortesias, focando-se, em vez disso, em reportes enviados pelas máquinas e na troca de locators.

No ano 2 DT (2º ano depois de Taylor) foram proibidos os QSOs que não eram feitos por máquinas e as regras proibindo a operação automática em HF foram suprimidas em todo o mundo.
As faixas de amador foram reduzidas a 5KHz de largura a cada 2 MHz (de corrente contínua até ao comprimento de onda da luz) de maneira a que estações computorizadas pudessem mapear esquemas de spread spectrum [saltos de frequência ou espalhamento pelo espectro] e de ALE em tempo real.
Utilizando apenas máquinas desperdiçavam-se larguras de banda adicionais.
O CQWW (agora designado por Concurso CQJTWW) foi o primeiro a entregar diplomas a operadores que não sabiam sequer que a sua estação automatizada tinha participado no concurso e que tinham uma pontuação notável – o último grito em operação automatizada!

No ano 3DT, as redes neuronais [inteligência artificial] verificaram que os humanos eram absolutamente desnecessários nos concursos e na validação de previsões de propagação. Assim, o Serviço de Amador foi eliminado em todo o mundo.

Houve um rumor que uma rede neuronal [inteligência artificial] de Itália, que estava a operar ilegalmente um processador FT11 beta “de alta potência”, fez o DXCC em 478 milisegundos, sendo este o mais rápido até ao momento.
Também é de notar que o CQJTWW, que chegou a utilizar 48 horas e que agora tem apenas competidores da rede neuronal, foi reduzido para 8,5 segundos, libertando a rede neuronal para mais sondagens ionosféricas para utilização de sub-modos.

Numa tentativa de criar uma espécie de banda livre clandestina, que permitisse a interacção entre humanos, alguns antigos radioamadores começaram a experimentar a modulação por gradiente da gravidade terrestre e transceptores de entrançamento quântico, tecnologias que não requerem ou utilizam os estilos restritivos do FT8, FT9 ou FT10 (talvez o FT10 funcione).

Gostaria de partilhar mais mas o meu tempo no futuro é limitado pela potência da minha máquina do tempo.
Se o leitor tiver acesso a uma máquina do tempo mais potente, agradece-se que informe o que se passou a seguir.

Irreverente, não necessariamente irrelevante

A minha narrativa ficcional é atrevida e irreverente, mas, infelizmente, não será provavelmente irrelevante.
O número de QSOs no modo do Joe, FT8, utilizando apenas máquinas explodiu e os efeitos dessa explosão podem ser claramente visíveis nas bandas.

Embora não saiba exactamente porque tal aconteceu naquela altura, a minha primeira exposição ao efeito do JTxx/FTxx ocorreu durante a último verão, na altura das esporádicas E, nos 6 e nos 2 m (ou a falta delas).

Nos dois anos anteriores foram feitos muitos QSOs em SSB e CW, verificando-se um agradável incremento no número de QSOs “não concurso”. Eu estive a trabalhar no meu VUCC [VHF/UHF Century Club] e as coisas pareciam promissoras.

Contudo, em 2017 a tradicional actividade parou. Parecia que ninguém estava em casa. Naquela altura eu não sabia, mas toda a gente estava a utilizar JT e FT enquanto eu procurava outras paragens. A ausência de sinais de SSB e CW não era apenas verificável, era incrível.

Uma semana depois procurei por sinais de PSK31, dado que tinha estado ausente deste modo durante algum tempo. Também não havia ninguém. Ahhh!

Há alguns meses, colunistas na CQ e QST começaram a escrever acerca da mudança de paradigma. A início ainda fiquei céptico mas agora já não estou.

Que raio fez o Joe ?

Numa recente carta da ARRL [associação nacional de radioamadores americanos], observadores atentos fizeram notar o crescimento explosivo de QSOs em FT8 e o imenso declínio de todos os outros modos.
Até o Joe K1JT expressou publicamente a sua surpresa acerca da forma como os seus novos modos digitais tomaram de assalto o mundo radioamadorístico. Mas, talvez como Robert Oppenheimer [responsável pelo projecto Manhattan, construção da primeira bomba atómica], que se sentiu desapontado com a criação da bomba atómica após a devastação do Japão, interrogo-me como o K1JT se sentirá após as suas criações se tornarem “apocalípticas”?

A cobertura relativa às criações de software e contributos do K1JT para as questões técnicas do radioamadorismo concentrou-se apenas nos méritos técnicos destas – o que é óbvio. O software WSJT-X do Joe é uma autêntica obra-prima técnica.

Mas eu gostaria de fazer uma breve intrusão nas grandes implicações que podem ocorrer ao radioamadorismo, no seu todo, no inicio de eventos globais tão disruptivos como o FT8.
Peço desculpa ao Sr. Taylor, mas acho que iguais doses de insolência, exagero e irreverência são boas ferramentas para enfatizar assuntos latentes e lançar o debate!

Eu não penso que o FT8 suplantará outros aspectos do radioamadorismo, mas a parte negativa das tecnologias que permitem QSOs entre máquinas, tais como o JTxx e FTxx, poderão intersectar-se, dramaticamente, com outros assuntos que o radioamadorismo enfrenta como um todo.

Então, vamos esgravatar na crosta da coisa (sem uma ordem particular).

De qualquer maneira, os radioamadores não estão a falar

A nossa experiência individual de radioamador – como tudo o resto – é construído por acumulação de experiências, que frequentemente parecem já “não ter evolução” ou serem “sempre iguais”. Mas, na realidade, nada fica parado e tudo está em constante evolução.

O delta de mudança – a velocidade aparente de mudança – fica maior quando experimentamos alguma dissonância ou mudança disruptiva, tal como aconteceu em 2017 com a “explosão do JT”.

Beneficiando da rectroespetiva, posso perceber que tenho sido parte do problema. Enquanto adolescente, nos anos 70, não tinha callbook [livro de indicativos com moradas] ou mesmo um filtro de CW (para não falar da internet ou do packet cluster), e enviava alegremente  o meu nome completo e endereço, em CW lento, para o correspondente durante os QSOs. Todos fazíamos isto porque, se não fizéssemos, não recebíamos as QSLs que nos eram necessárias para as diferentes conquistas [diplomas e prémios] enquanto radioamador e para as quais tanto e tão diligentemente nos esforçávamos! Sem eQSL. Sem LoTW. Só mesmo QSL via CTT!

Agora, a conversação de radioamador ainda é conversação de radioamador se se conseguir encontrar, coisa que, naqueles dias, mesmo nos QSO rápidos, mesmo com correspondentes de DX, sempre havia alguma cortesia, comentários amigáveis, utilizando ou não código Q e abreviaturas de morse.
Os QSOs em SSB eram ainda mais “apalavrados” com cortesias e cumprimentos.
Fora dos concursos não utilizávamos a matriz de QSOs tipo concurso, havendo sempre 73, 88, HPE CU AGN, TNX QSO, GUD DX, FB SIGS, TU, GL GD DX, etc,

Mas ainda o fazemos hoje e isso é uma bênção e uma maldição. Mais contactos podem ser feitos (talvez uma necessidade face aos QSOs tipo feitos por máquinas, rapidíssimos e suportados por redes de spotting e por eventos ao longo de todo o ano, tal como aquela coisa da ARRL de grid chasing e a maratona DX patrocinada pela CQ) mas perdemos, em larga medida, a camaradagem e o contacto humano.

Ao contrário dos meus primeiros anos, e até recentemente, eu não fiz muitos QSOs em fonia porque estive a viver num apartamento (13 anos) e operava apenas com antenas discretas e em QRP.
Não queria que a minha voz fosse ouvida nalgum rádio despertador, mas sentia-me confortável com os dits do Morse e com os trinados do PSK31, dado que estes dificilmente seriam decifrados pelo comum dos mortais.

É difícil ter conversações em SSB utilizando baixa potência e antenas de compromisso e descobri, enquanto adulto jovem, que não tinha tido o prazer de conversar em CW. Apenas tinha feito QSOs tipo concurso e não conversas longas.

Não utilizo repetidores e se preciso de conversar com um colega telefono-lhe ou aproveito os “pequenos-almoços do radioamador” [encontros de radioamadores para conversar e petiscar] ao Sábado. No passado ainda cheguei a conversar usando PSK31 mas, mesmo nessa altura, utilizando uma série de ficheiros pré concebidos e que permitem pouca conversação! Mesmo que a informação contida no ficheiro possa ser interessante, continua a ser, essencialmente, comunicação automatizada dado que ninguém está a conversar.
Mas o PSK31 é agora escasso, uma memória florida…

Agora que não tenho restrições para as antenas e posso utilizar potência até ao limite legal, procurarei conversações em SSB – assim que encontrar o meu equipamento de 100 W, de que gosto tanto quanto o meu Elecraft KX-3 ou construir um amplificador.
Mesmo quando não tenho de o fazer, estou em QRP. Em quantas desculpas consigo pensar ? Estamos a escorregar para um futuro radioamadorismo não conversacional e parece que eu sou parte do problema!

Os jovens querem apenas WSPR ?

Nestes tempos, quase tudo é acerca “dos jovens”. Pensemos nos jovens que são levados para escolas dos subúrbios em SUV blindados, que não têm oportunidade de brincar ao longo do caminho ou bater os pés numa poça de água de um qualquer buraco da estrada! As pobres almas têm de lidar com a “síndrome do dedo da Nintendo” e, por causa disso, muitos não serão capazes de segurar um bocado de pau nas suas mãos arrepanhadas!

Vou sair desta caixa de comentários antes de me deixar levar na onda (na realidade e literalmente), mas alguém está a pensar muito nos nossos jovens e esse alguém é a ARRL. A ARRL desenvolveu uma grande iniciativa para “pensar acerca dos jovens” e essa é, ostensivamente, acerca de tornar o radioamadorismo mais acessível à geração dos smartphones.

Não poderemos abordar o assunto aqui, por um conjunto de razões, mas parece interessante a forma como o “estilo de operação FT8” serve nas gerações – novas e velhas – de radioamadores introvertidos que entraram ostensivamente num hobby de comunicações, mas que não querem realmente comunicar!

Deixem-me explicar. Os modernos modos digitais, como o JTxx e o FTxx usam codificação da era espacial, modulação e técnicas de descodificação e DSPs que permitem fantásticos desenvolvimentos na relação sinal-ruído, que permitem comunicações rádio em ligações onde a propagação não suporta contactos em SSB ou CW. Essa é a parte boa!

A parte menos boa é que tirar vantagem dessas técnicas requer longos tempos de integração que impactam negativamente as comunicações em tempo real.
A maioria dos QSOs em JTxx ou FTxx requerem tempos muito precisos e a sincronia exige transmissões em ambos os sentidos que vão dos 15 segundos a vários minutos.
É possível transmitir informação de forma limitada em ambos os sentidos, mas não é possível conversar.
Isto é perfeito para receber informação do espaço profundo, situação que levou à criação destas técnicas, mas não é bom para comunicações em tempo real.

A única coisa que impede o processo de ser completamente automatizado é a regra da FFC [equivalente à ANACOM nos EUA], muitas vezes ignorada, que limita a operação automática na maioria das bandas de HF e o facto de o software ter um botão para envio (“send”) que tem de ser realmente clicado de vez em quando pelo radioamador (se essa opção tiver sido selecionada no menu de configuração).

O software WSPR [weak signal propagation repórter] do K1JT é similar. Muitos operadores deixam as suas estações a funcionar [transmitir] 24h/7d de forma automática, seja isso legal ou não.
Os efeitos são minimizados, devido a muitas estações WSPR emitirem na ordem dos miliwatts em vez de kilowatts, mas regras são regras, certo ?
Também prefiro ser atingido por uma arma de paintball do que por uma .44 – Mas prefiro mesmo não ser atingido, de qualquer forma.

O WSPR, quando correctamente utilizado, é uma ótima ferramenta que já melhorou o nosso conhecimento sobre propagação.
É aproximadamente uma rede pública de sondadores ionosféricos que mapeia os modos de propagação em tempo real, providenciando detalhes que nós nem imaginávamos.
Mas o WSPR não é um modo para QSOs porque os períodos de integração são ainda mais longos que os do JTxx e do FTxx que permitem a troca de informação de forma limitada.
De qualquer forma, para os radioamadores que não querem mesmo conversar com outros radioamadores estes novos modos podem ser exactamente a receita certa!

Posso imaginar um jovem a pedir a um dos pais para aderir ao “clube de radioamadorismo WSPR” que funciona como actividade extracurricular.

“Mãe, mãe!” chama o excitado jovem, “lembras-te quando falamos acerca do radioamadorismo e de como estavas preocupada com o facto de ter de falar com estranhos? Bem, acabei de saber que se aderir ao “clube de radioamadorismo WSPR” e se for para o ar, tal como falámos acerca do assunto, não tenho de falar com ninguém, nunca!”

“Bem”, diz a mãe, como uma cara de preocupada, “então e as interferências na vizinhança, a atrapalhação nos trabalhos da escola e aquelas antenas enorme e feias que vimos ?

“Mãe, essa é a melhor parte,” diz o excitado jovem, “WSPR usa potência muito baixa, logo não afectará ninguém. E porque usa uma tecnologia super nova, não será preciso sequer uma antena! Os trabalhos da escola continuarão a ser o meu foco principal – depois dos jogos online – porque o WSPR fala com o meu sistema de jogo e dirá onde foram escutados os meus sinais e coloca esta informação na internet!”

A mãe, que começou a sorrir, diz “Eh pá, fizeste realmente o trabalho de casa, não fizeste? Mas e a licença de radioamador? Não vai ser difícil de obter?”

“Nem pensar, mãe!” diz o jovem, “O meu professor disse que graças a um novo programa de uma organização chamada ARRL posso obter a licença de WSPR simplesmente por ir, em três tardes, a umas sessões. E até nem há teste nem nada. Bem porreiro!”

Improvável? Não penso que seja. Se analisarmos as tendências esta situação parece inevitável. A ARRL, que parece estar a mudar para um paradigma de “jovens primeiro”, utilizando como abordagem o mínimo denominador comum em tudo o que faz, está pressionar fortemente para aumentar os direitos dos radioamadores da classe  Technician para que eles possam usar, por exemplo, os modos digitais e, esperançosamente, queiram progredir no hobby, subindo de classe.

Colocando o meu sarcasmo de lado

Colocando o sarcasmo de parte, uma licença WSPR sem exame pode fazer algum sentido (especialmente nas disciplinas de ciências das escolas básicas), desde que a operação seja restrita (também em potência) a pequeníssimas partes de algumas bandas pouco utilizadas (e temos bastantes destas).

A expectativa de “salvar” o radioamadorismo, a qualquer custo, vale a pena ?
Deverá ser tudo apresentado e embalado de forma a ser acessível a qualquer jovem, em qualquer parte ?

Nos meus standards, os exames para obtenção da licença são já tão fáceis que não colocam qualquer barreira para obtenção da licença. Recentemente, fiz a preparação de um amigo, durante um almoço que durou duas horas, após o que ele obteve a Licença Geral [equivalente à classe B/2 em Portugal] sem estudo adicional. Tudo isto sem nunca ter possuído ou usado um rádio ou mesmo ter patilhado um microfone.

Leva isto à conclusão lógica que em pouco tempo pode haver apenas uma classe de licença – mesmo antes de existir incentivo ao licenciamento!
Levei anos para perceber que, para a maioria das coisas, só apreciamos verdadeiramente as coisas que exigem esforço, tempo ou dinheiro – ou todas as opções em conjunto.

Os jovens de hoje continuam a investir tempo, esforço e dinheiro nas coisas que lhes interessam. Jogos de vídeo. Programação. Desenvolvimento de software. Hardware para hacking. Namoro. Rapazes. Raparigas. Motas. Carros. Radioamadorismo.
Que pensam vocês?

A antena aqui é um dipolo encurtado de 1,8 m

Por causa de restrições nos prédios, etc, gerações inteiras de radioamadores cresceram sem saber o que é operar com antenas “reais”.
Já não conto as vezes em que novos radioamadores me perguntaram se antenas pequenas, caras e feitas para ser utilizadas para serem transportadas às costas para cumes montanhosos, são boas para utilizar em casa. C’um diabo, não são nada boas. São péssimas!

Como enfatizado mais tarde neste artigo, as nossas antenas definem a nossa experiência de radioamadores. Antenas da treta equivalem a experiências más.
Enquanto os radioamadores da minha geração sonhavam com torres muito altas, encimadas com yagis enfasadas (ainda tenho dipolos reais no exterior e loops), muitos radioamadores novos sonham com dipolos a baixa altura, escondidos nas árvores dos seus pequenos jardins ou antenas exteriores de qualquer tipo.

Enquanto sonham estão a vasculhar no que são, essencialmente, não-antenas [uma carga fictícia tem uma SWR de 1:1…], muito caras, e adivinhando porque é que o radioamadorismo não é assim tão catita.

Esses novos radioamadores ficam, muitas vezes, surpreendidos quando lhes digo que se pudesse ter um conjunto antenas em stack, no topo de uma torre realmente alta, trocava alegremente o meu novo equipamento – qualquer novo equipamento – pelos Kenwoods, Heathkits ou Yaesus dos anos 70, que eles vêm como anacrónicos e sem utilidade. Sem mais delongas.
Pode-se utilizar um rádio de compromisso mas não se pode ter antenas de compromisso. Ou pode ?

Atualmente, ao podermos fazer comunicações digitais com correção de erro podemos também mitigar o cenário de antenas deficientes através destas novas tecnologias. Tecnologias como o JTxx e FTxx permitem ganhos de 20 a 30 dB sobre o SSB ou o CW – E isso é imenso!
Mesmo nas comunicações digitais teclado a teclado, tais como o PSKxx e o MSKxx, que permitem conversar com ganhos de 10 a 20 dB sobre SSB e CW, ainda se está no domínio do clube WSPR.

Apenas necessitamos de pequenas bandas

A ARRL e outros grupos estão sempre a dar o coiro e o cabelo para a preservação do espectro atribuído, mas se tudo migrar para a operação do género JTxx e FTxx, as faixas de frequência do serviço de amador poderão vir a ser pequenas amostras do que são agora.

Um grande número de QSOs digitais cabem na largura de banda de um único QSO em SSB, regularmente não é possível escutar auditivamente os sinais, pelo que terá de se procurar os sinais à volta da frequência de chamada e, então, para que servem todas aquelas frequências vazias?

Não há necessidade de chamar CQ nas grandes faixas de frequência

Mesmo que as faixas de frequência do serviço de amador se mantenham “grandes”, não precisaremos de andar à volta das frequências de chamada se os nossos PCs coordenarem entre si os nossos QSOs, na internet, imediatamente antes de colocarem os rádios na frequência combinada, de maneira a que os PCs possam trabalhar-se entre si e registar o contacto de forma a sabermos o que foi feito.

Procedendo desta maneira poderemos facilmente limitar os nossos QSOs de entre uma lista de amigos, membro de um certo clube ou associação de radioamadores (clube de tiro/armas, desporto preferido ou preferência política) ou a amigos que nos enviaram “massa” (Bitcoins?) para obter os nossos raros e virtuais “QSL cards”.
Desta maneira, as expedições DX podem tornar-se lucrativas e enquanto os nossos rádios-robot estão a faturar QSOs, poderemos estar a pescar, a nadar ou a fazer surf!

De entre as redes globais de spotting, entre as quais se contam o reverse beacon network, o WSPR net, o IFTTT, o PSK reporter, etc, podemos fazer a maior parte das coisas já mencionadas com a tecnologia já existente o que, apesar de estar a ser um pouco especulativo (e um pouco mais do que apenas sarcástico), faz com que trazer o radioamadorismo para a “era digital” não seja tão fácil como parecia em tempos passados.

Em direcção a um futuro incerto

O futuro – para onde o radioamadorismo vai e o que será – é resultado do que existe agora e do que aconteceu antes.

Os radioamadores de hoje existem na esteira contínua do que começou (muito lentamente) há algumas centenas de anos com experiências básicas de electricidade e magnetismo, mas está a acelerar a um ritmo exponencial.

A rápida evolução da tecnologia não é, obviamente, um exclusivo da rádio, mas continua a ser admirável olhar para trás e ver a evolução. É fácil “perder a mágica” porque estamos rodeados por ela em cada minuto de cada dia.
Mesmo que não demos conta disso, o comboio da tecnologia desliza pelos carris a uma velocidade cada vez maior.
O radioamadorismo está, também, a mover-se em frente e, nalguns casos, está a aproximar-se do ponto de não retorno – Um horizonte onde não há volta a dar.

Não sendo como a arte equestre, por exemplo, em que cavalgar um cavalo numa sela inglesa é substancialmente a mesma coisa hoje ou há 100 ou 500 anos, o radioamadorismo mudou.
Os transmissores de faísca foram devidamente banidos por lei, são realmente conhecidos apenas por um restrito número de aficionados e o AM por modulação de placa também não é escutado frequentemente.
Nestes dias os receptores regenerativos são de construção caseira, magnificamente construídos por uns quantos entusiastas que continuam a guardar este legado. A elegante mecânica que tornou os antigos rádios tão especiais – e frustrantes – com condensadores de ar, com engrenagens e alavancas sincronizadas e dials robustos foram substituídos por software e matrizes programáveis.

Para o melhor e para o pior, o radioamadorismo está firmemente embebido no domínio do digital e se pensa que os sistemas emergentes não suplantarão o que nós sentimos agora como radioamadorismo, a evolução certamente provará que você estava errado!

Os primeiros cem anos de radioamadorismo testemunharam uma mudança drástica, e daqui a cem anos não seríamos capazes de reconhecer no que o radioamadorismo se tornou – se este ainda existir.
Em termos de “idade geológica” o radioamadorismo parece ter vindo e ido de forma finita, dentro de uma pequena janela temporal da evolução.

Com o que sabemos da progressão de outras tecnologias, espécies, etc, e de toda as provas recolhidas até à data, existe uma boa probabilidade de que o fenómeno a que chamamos radioamadorismo tenha nascido, amadurecido, evoluído e “falecido” num espaço de 150-250 anos. Ponto final parágrafo!

E se isto não for suficientemente inquietante, não nos esqueçamos dos caprichos do sol e da física dos planetas que permite a existência de rádio no seu mais elementar nível. Electricidade e magnetismo – ainda bastante obscuras embora os tomemos como certo do ponto de vista prático – permite a rádio a nível local mas a “rádio global” necessita da ionosfera, que é dependente do sol, e cujos os outputs variam em ciclos mais ou menos misteriosos, etc. E a lista de dependências e “coincidências” ainda está a começar! E se tirarmos apenas uma parte do conjunto interdependente – puf! – não há mais rádio.

Assim, se gosta do radioamadorismo como ele é praticado hoje, é melhor ficar bastante ocupado praticando-o gostosamente – hoje! – porque o nosso inteiro hobby existe numa preciosa e precária bolha de evolução que provavelmente nunca mais será experienciada novamente.

Seja um ponto de inflexão ou de não retorno, quando acordou hoje (ou qualquer dia nos últimos anos), o radioamadorismo estava diferente. Não há que adivinhar se um dia será diferente – O dia é hoje e o radioamadorismo está diferente. O Joe Taylor “causou” no presente, uma perturbação local, mas se ele não o fizesse, outro alguém o faria.

Contudo, no momento presente, mesmo se cruzámos o antes mencionado horizonte, o radioamadorismo está ainda vivo e de boa saúde, e o nosso desvanecimento no futuro –  embora mais perto do que nunca, como evidenciado pela tecnologia digital JTxx e FTxx – ainda está para ser determinado.

A amplitude da ciência radioeléctrica no passado e no presente ainda está disponível para ser explorada (excetuando emissores de faísca!). Podemos construir um receptor regenerativo clássico ou comprar um rádio sintetizado de última geração. Podemos usar o código Morse ou a modulação digital mais avançada. Ou podemos usar uma regeneração primitiva para copiar os sinais digitais mais avançados (talvez estabilizando o oscilador detector com um GPS?).

Mas isto não vai ficar assim – Isso é garantido!